08 setembro 2014

Somos todas Genis - Prêmio Cláudia

Oi, gente!
Como passaram a semana?
Eu passei estudando mil e estou programando essa postagem porque estou gastando todo o meu final de semana estudando para passar em Neurobiologia.
Eu nunca na minha vida pensei que odiaria tanto uma matéria quanto eu odeio essa.

Bem, eu sempre digo que esse blog é minha segunda casa, é meu diário e eu registro aqui TUDO o que considero importante na minha vida.
Se não vem para o blog, ou é um segredo que quero manter só para mim ou é algo que não teve grande significado.
E hoje eu quero contar algo de extrema significância para mim.

Quem me acompanha apenas pelo blog ou pelo Facebook pode não saber, mas quem me conhece sabe que por trás das minhas fotos de cosplay eu tenho uma vida doida.
Eu nunca fiz do cosplay uma prioridade para mim, sempre foi um hobby, algo que faço nos meus tempos livres porque gosto, eu não vivo disso, eu tenho outras coisas mais importantes na minha vida.
É claro que o cosplay é uma parte que gosto muito e eu me orgulho como cosplayer, mas eu me orgulho INFINITAMENTE mais de tudo o que sou fora do cosplay e já disse isso antes.
Uma das partes que eu mais me orgulho são as minhas lutas.
Eu sou uma pessoa muito combativa, e digo que cresci muito nos últimos 5 anos na minha consciência social.
Eu me lembro que quando saí da USP eu não estava muito feliz com quem eu era como pessoa, como cidadã.
Nos anos seguintes eu dediquei à, além de seguir com meus estudos, estudar as pessoas ao meu redor e o lugar onde eu vivia.
Eu achava totalmente incoerente falar sobre coisas que eu não havia vivenciado ou estudado.
Durante esses anos eu me encontrei no feminismo, no meu posicionamento político e principalmente na questão das liberdades individuais.
Me orgulho MUITO da pessoa que sou hoje e de todos os movimentos que defendo.
Mesmo sendo muito nervosa e ansiosa, eu aprendi que eu não consigo ficar parada vendo as coisas ao meu redor fluindo de um jeito que eu não concordo.
Se ver as coisas ruins me faz mal, não fazer nada para mudá-las me deixa pior.


Quando eu vim para a Unesp eu me dediquei ao Movimento Estudantil, porque não aceitava as condições deprimentes que nós alunos éramos submetidos.
Eu me dediquei à projetos de extensão com crianças de hospital porque eu queria conhecer a realidade das pessoas que dependiam de tratamentos intensivos no SUS, como as famílias lidavam com essa situação delicada, eu visitei idosos internados porque eu queria saber como eles se sentiam e quem eles eram no fim da vida.
Eu aprendi tanto com tudo isso, foi uma experiência que nunca vou me arrepender ou esquecer.
Eu continuo no Centro Acadêmico do meu instituto e tive o prazer de estar presente quando o primeiro Coletivo Feminista de Botucatu foi criado.



O Coletivo que participo é o Coletivo Genis, foi fundado há poucos meses.
Nós passamos por momentos muito complicados esse ano, acolhendo vítimas de abusos dentro do nosso campus.
Montamos o Coletivo para fazermos rodas de conversas sobre gênero e acabamos acolhendo vítimas de estupro no meio universitários, amigas de turmas violentadas em festas, alunas de primeiro ano abusadas por uma hierarquia decrépita.
Foi um grande desafio para todas nós, ter que bater de frente com o meio universitário que fazia de tudo para abafar os casos, alunos incrédulos que acusavam vítimas de estarem inventando um caso de violência tão grave.
Foram momentos horríveis esse ano para todas nós no Coletivo Genis. Tentamos dar o máximo possível por todas as vítimas, dedicamos nossas horas para ajudá-las, escondê-las e apoiá-las em tudo o que fosse possível.
Eu me lembro que em vários momentos nos desesperamos, pensando que não conseguiríamos fazer nada, que não seguiríamos em frente, mas nós conseguimos.


As Genis continuam firme depois de tudo o que passamos.
Para mim o Genis se tornou um escudo dentro da faculdade, que protegia as mulheres violentadas que chegavam até nós.
Eu que sempre fui tão briguenta, me vi publicamente exposta, defendendo o anonimato das vítimas, confrontando veteranos que tentavam nos calar, apontando dedo na cara de professores que não acreditavam em nós.
Eu tenho muito orgulho de tudo o que fiz com o Genis, e tudo o que continuo fazendo com as meninas que constroem esse movimento.
Me sinto absolutamente honrada em saber que mulheres vítimas de abusos confiaram em nós, e fico comovida em ver como foram corajosas o suficiente para denunciar.
E me sinto extremamente orgulhosa por ter me jogado na linha de frente e estar lá fazendo algo por elas.
Não foi algo que planejei, não foi algo que fiz porque queria algo em troca.
Foi algo que fiz porque achava certo, porque era o que eu deveria fazer, não porque alguém me disse, não porque a moral me mandava, mas porque EU sabia que era certo e era o que eu TINHA que fazer.
Hoje olho para esses momentos e vejo o tipo de pessoa que sou, e eu tenho muito orgulho.


Esse mês recebemos a notícia que o nosso Coletivo foi indicado ao Prêmio Cláudia.
Uma premiação exclusivamente feminina, em que brasileiras notáveis são indicadas.
O nosso coletivo nasceu da união de 14 garotas, nós fomos indicadas à categoria Revelação, um prêmio para jovens mulheres com feitos notáveis.
Nossas representantes são a Mariana e a Dianne e a votação é do público.
Ganhando o Prêmio ou não, todas nós e nossas convidadas estaremos na cerimônia de premiação no mês que vem.
Queria compartilhar isso, não por mim, mas pelo trabalho que o Genis tem feito.
Pelo apoio às vítimas dentro da universidade, por ter criado um grupo onde as vítimas se sentem seguras para compartilhar, muitas vezes pela primeira vez seus casos de abuso, por ter se tornado uma voz de resistência das mulheres no meio universitário e principalmente por todas as vítimas que tiveram coragem de denunciar seus agressores, tiveram coragem de se abrir conosco e coragem de seguir em frente.


Eu ainda não tive tempo de compreender totalmente o fato de que estarei em uma premiação em São Paulo com minhas colegas de faculdade, em um evento com gente famosa.
Eu não tinha pensado em nada disso até ver as fotos da premiação do ano passado e perceber que é um evento de gala.
Enfim, estarei em São Paulo no mês que vem com todas as garotas com quem tive o prazer e as dores de compartilhar esses momentos intensos.
Era algo que eu queria compartilhar com todos vocês que visitam esse meu diário semanal.
Foi importante para mim e queria que todos soubessem.

Uma boa semana para todos!

2 comentários:

  1. Hey Di Lua!
    Por deus, que loucura! Acho muito interessante o fato de você ser cabulosa não só no universo cosplay quanto na vida propriamente dita também. Tem dias e momentos, muitos deles aliás, que fico pensando em como posso melhorar o mundo. Sou desde criança meio maluca com o meio ambiente, tanto que já tive várias ideias e projetos (alguns deram certo, outros nem tanto) e as relações sociais entre as pessoa (por exemplo: me dou infinitamente melhor com os meninos da minha sala, já que as garotas fazem normalmente apenas fofocas maldosas umas das outras). Porque, sei lá os motivos disso, as pessoas parecem gostar mais de se machucar do que se ajudar. É melhor rir da desgraça alheia do que estender a mão. Eu não acredito em nada disso. Tenho certeza que podemos e é importante sim fazer a diferença para melhor. Espero que seus esforços realmente valham a pena e que em breve eu consiga fazer coisas semelhantes também.
    Alice²

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    1. Pois é, Alice.
      Quando eu digo que minha vida está insana é esse tipo de coisa que estou querendo dizer.
      Eu não sou de fazer draminhas mascarando de problemas reais.

      Sim,eu acho que chega uma hora que a gente está bem com a gente mesmo, e resolve olhar pra fora, ai percebe que está errado e quer fazer alguma coisa pra mudar.
      Você deve ter sido uma criança muito fofa!

      Eu percebo um pouco disso nas relações interpessoais também, acho que tem a ver com as pessoas não estarem bem com elas e procurarem nos outros seus próprios defeitos.
      Eu costumava ter mais amigos homens quando era mais nova, mas depois mudei bastante e mudei as amizades.
      Hoje tenho mais amigas com pensamento próximo ao meu,e eu vejo o quanto são amizades bonitas e limpas.
      Acho que é tudo questão de encontrarmos pessoas que gostamos de conviver e que apreciem nossa felicidade de forma recíproca.

      Desejo a você todo sucesso nos seus projetos, e posso dizer que as vezes uma coisa pequena que colocamos nosso coração tem mais importância do que um projeto ambicioso.
      Eu tento trabalhar na minha zona de conforto, no bairro, na rua, no colégio, porque embora seja um espaço pequeno, eu sinto que faço alguma diferença.
      E para mim, se fizer a diferença pra alguém além de mim, já é o suficiente.


      Beijos e boa semana!

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